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O Brasil se preparava para comemorar o Centenário da Independência e Adolpho freqüentava a Escola Francisco Cabrita, na Rua Major Ávila, perto da Praça Saenz Peña. A professoara chamava-se Carmem, achava-me muito grande e sabido para freqüentar aquela turma. Mal ela sabia que ele estava apaixonado por ela. E em muitas noites ela lhe vinha em sonhos.
Foram depois para a Rua Conselheiro Costa Pereira, 45, nos fundos da Fábrica de Tecidos Corcovado. Em frente passava um canal. A casa tinha uma sala e dois quartos pequenos. No verão, os Blochs costumavam dormir de janelas abertas. Eram, então 10 pessoas e uma empregada mineira, chamada Aurora, uma alma nobre. Obrigava-os a contar para ela os nossos sonhos para fazer sua fé no bicho. Jogando 200 réis ela podia ganhar 1.400. com isso ela fazia a feira, depois do meio-dia, omprando as xepas. À noite, o guarda-noturno apitava, apitava e uma de suas irmãs ia à janela e convidava-o a verificar o que podia ser roubado da casa onde viviam. O guarda ficou amigo da família e às vezes trazia coisas para alegrar o jantar. Ele os ensinou a usar luz sem pagar à Light. Bastava uma moeda de 400 réia que se colocava no lugar do fusível. De dia, retiravam a moeda. Para o fiscal da Light, diziam que quando tivessem dinheiro mandariam ligar a luz de novo. O problema eram as lâmpadas. Muitas vezes tiveram que trocar a lâmpada de um cômodo para outro, porque não tinham condições de ter três lâmpadas. Era luxo demais.
A mãe de Adolpho, um pouco religiosa, rodas as sextas-feiras acendia duas velas para festejar o shabat. Aurora aprendeu rapidamente apreparar todas as comidas típicas. Adolpho já falava um pouco de português, tanto que um dia sua irmã Bella teve dor de garganta e o Adolpho foi levá-la à Santa Casa. Serviu de intérprete e mostrava ao médico a região da dor. Finalmente compreenderam, levaram Bella e lhe arrancaram um dente.
Vieram novos vizinhos: Adauto Lúcio Cardoso e seus irmãos, que haviam perdido o pai em Curvelo e vinham tentar a vida no Rio. Adauto e o tio Jorge de Adolpho eram seus companheiros de bonde. Quando o cobrador se aproximava, tilintando as moedas, o tio Jorge permanecia imperturbável, fingindo que lia o jornal. O cobrador insistia. O tio Jorge voltava-se para ele e perguntava aborrecido: "Outra vez?".
Adolpho e sua família começaram a trabalhar com pequenas máquinas manuais. Ganhavam para viver. A tragédia era aos domingos, quando o próprio Adolpho queria ir ao Cinema América para ver O Corcunda de Notre Dame. Tinha de lavar a camisa e esperar secá-la ao sol e ao vento para poder ir ao cinema. Depois ia à Confeitaria Tijuca e ficava apreciando as meninas. Foi assim que começou a conhecer a gente brasileira. Quando ouvia o português, falado de longe, tinha a impressão que era o russo. O tempo passava e chegavam às batalhas de confete que precediam de três meses o carnaval. As lâmpadas eram penduradas no meio da rua, as casas se enfeitavam, o confete, a serpentina e o lança-perfume eram armas para se conquistar uma namorada.
Os Blochs haviam sido despejados da Rua Pereira Nunes, uma sensação muito triste que Adolpho teve ao ver uma carroça levando todos os móveis da casa. Dez anos depois, foi à Rua Pereira Nunes, esquina de Barão de Mesquita. No lugar, havia um café, cujo dono era um português. Pagou-o tudo o que devia. O homem ficou emocionado e o brindou com um banquete: sabia que Adolpho gostava de pão com sardinha e guaraná. Ficaram amigos para sempre.
Depois da Rua Pereira Nunes, os Blochs foram morar na Souza Franco, quase esquina do Boulevard 28 de Setembro, no coração de Vila Isabel, o mais famoso Ponto de Cem-Réis. Já tinham instaladas duas pequenas máquinas impressoras movidas a mão e imprimiam seu cartão de visita: Joseph Bloch & Filhos - Tipografia - Rua Vieira Fazenda, 24. Não tinham telefone. Em frente, havia a quitanda de dona Maria, uma mulher bondosa que ensinou seu papagaio a falar, todas as vezes que o telefone dela tocava para eles: "Joseph Bloch & Filhos! Telefone!" Foi o primeiro secretário eletrônico que Adolpho Bloch conheceu e nunca exigiu nenhum contrato de trabalho. Quando sobrava algum dinheiro, trazia-lhe um pacote de sementes de girassol. E ele, agradecido, pulava para o seu ombro.
Na Rua Dona Zulmira, que ficava perto, as batalhas de confete encantavam
Adolpho Bloch. Cadeiras na calçada, luzes, as famílias ofereciam
croquetes e empadinhas a todos, era uma festa para os olhos, o estômago
e o coração. Já com a pequena renda da gráfica
e participando da alegria geral, a família Bloch era muito feliz.
Ao longo de sua permanência no Brasil, juntavam dinheiro para comprar
as passagens que os levariam para os Estados Unidos. Mas a alegria de viver
no Brasil foi tomando conta dos Blochs. Um dia, o dinheiro reservado para
as passagens serviu para comprar o primeiro Ford Bigode da familia, no
Mestre-Blatgé. E assim podiam participar das batalhas de confete
e, durante o carnaval, do corso da cidade, que ia da Avenida até
o Mourisco, no final de Botafogo. Sua irmã Sabrina casou-se.
Depois foi a vez de Fanny. Casou-se com um homem muito bem de vida, pois
tinha uma bicicleta para ir trabalhar. Levava-os uma vez por semana à
Exposição do Centenário do Brasil, entrando pelos
fundos da Rua da Misericórdia. Meses depois, descobriram que ele
só os levava nos dias de entrada franca.
Começou a freqüentar as redações dos jornais, em busca de encomendas. Em A Vanguarda, que bem mais tarde, com outro proprietário, seria um jornal integralista e anti-semita, tornou-se amigo de seus diretores Ozéas Serôa da Mota e Mazzini. A sua rotativa era em frente à Rua do Rosário, 170. Um dia apareceu um didadão português, chamado Oliveira, trazendo uma amostra de papel de seda para servir de invólucro de laranjas. Mazzini perguntou a Adolpho se ele seria capaz de imprimir aquilo. Adolpho ficou de estudar o assunto e conseguiu fabricar o papel de 18 gramas na Fábrica de Papel Companhia Mecânica de São Paulo. E comprou máquinas para imprimir naquele papel o mapa do Brasil. E assim pôde atender à freguesia dos exportadores de laranja: Alberto Coccoza, Karl Fisher, Oliveira & Irmãos e outros. Em menos de seis meses, tinham dinheiro para a primeira casa, na Rua 5 de Julho, 32, agora 82, em Copacabana. Foi construído pela Freire & Sodré e nela gastaram 180 contos de réis.
A gráfica teve vários endereços: Mem de Sá, 285 (onde Adolpho conheceu Irmã Paula); Constituição, 38 e, depois, Visconde da Gávea, 26. Foi neste endereço que compraram a primeira off-set e iniciaram a construção do prédio da Rua Frei Caneca, 511. Estavam às vésperas da Segunda Guerra Mundial. No dia 1º de setembro de 1939, quando leu no Correio da Manhã que os tanques da Alemanha haviam invadido a Polônia para ocupar o porto de Dantzig, e que os poloneses estavam reagindo com a cavalaria, Adolpho disse para ele mesmo: "Já vi esse filme, em 1920, nas ruas de Kiev.". E foi naquele ano que inauguraram a primeira sede própria, na Rua Frei Caneca, um prédio bastante moderno para a época. Nos fundos, junto ao morro de São Carlos, tirararm 50 mil metros cúbicos e eli ergueram um edifício de seis andares. E lá, ficaram até 1968, quando se mudaram para o Russel, 804.
Ao mesmo tempo, compraram os terrenos em Parada de Lucas, boa parte deles do editor José Olympio. Custaram 2 milhões de cruzeiros em vinte promissórias de 100 contos cada uma. José Olympio os concedeu a oportunidade de comprar outros terrenos ao lado e neles construíram o Parque Gráfico, um dos maiores da América Latina. Nesse tempo, a rotativa trabalhava a semana toda imprimindo revista infantis para a Brasil-América, do Adolfo Aizen, e para a Rio Gráfica, do Dr. Roberto Marinho. Adolpho Bloch tinha três dias de folga nas máquinas: sábado, domingo e segunda-feira. Sempre sonhara ter uma revista semanal que não dependesse das encomendas. Tinham capacidade para imprimir 200 mil exemplares. Os acontecimentos eram históricos e Adolpho queria participar deles. O mercado de revistas, no Brasil, era liderado pelo O Cruzeiro, dos Diários Associados. Adolpho teve a oportunidade de visitar a nova sede construída pelo Dr. Assis Chateaubriand, na Rua do Livramento. E verificou que a rotativa estava em um andar e o setor dos cilindros em outro. Não compreendeu aquela disposição e percebeu que, com inovações técnicas e editoriais, poderia conquistar o mercado.
Adolpho Bloch tinha amigos intelectuais: o Henrique Pongetti era o seu companheiro de praia. R. Magalhães Jr. era o seu conhecido dos tempos do Assirius, quando ele ocupava uma mesa na primeira fila, junto à pista e dançava os dois tangos e dois maxixes de praxe. Adolpho convidou-o para trabalhar no projeto de uma revista semanal. Em 1951, em uma reunião da qual fazia parte o seu primo, Pedro Bloch, imaginaram uma revista do tipo da Paris-Match, daí surgindo o nome de Manchete. Para o lançamento da revista, Adolpho comprou novas máquinas e instalou a redação na sede da Rua Frei Caneca. Colocou um anúncio nos jornais, dizendo que precisava de um desenhista industrial. Daí, surgiu um rapaz, o Wilson Passos, de poucas palavras, para trabalhar na revista Manchete: um técnico rápido e competente, segundo o próprio Adolpho afirmava.
Naquele mesmo ano, inaugurava-se a TV Tupi do Rio de Janeiro. A Rádio Nacional ainda era o principal veículo de comunicação do país. Foi nesse qudro que a Manchete surgia em abril de 1952. No início dos anos 50 foram lançadas grandes revistas em todo o mundo e Adolpho as acompanhava de perto. Costumava dizer que o princípio da ficliidade consiste em se trabalhar naquilo que se gosta - e ele gostava de trabalhar naquele ramo. O primeiro número da revista não o agradou, fazendo com que ele mesmo lutasse pelo seu melhoramento. Só começou a compreender um pouco do jornalismo quando do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. A capa já estava impressa, era do Brigadeiro Eduardo Gomes, tradicional adversário do presidente. Na manhã de 24 de agosto, uma terça-feira, quando Lourival Fontes telefonou para Adolpho para informá-lo sobre o suicídio, este teve de imprimir nova capa com o Presidente Vargas. À tarde, a edição foi para as ruas e à noite já estava esgotada. No ano seguinte, outra lição: Carmem Miranda morrera nos Estados Unidos e viria a ser sepultada no Brasil. O enterro foi em um sábado, com grande acompanhamento e muita emoção popular. Não podia haver dúvida: a capa da semana seria ela. Aconteceu que, no domingo à tarde, a boate Vogue pegou fogo. Dois homens, em desespero, atiraram-se do prédio onde funcionava a boate. A tragédia abalou o Rio e Adolpho teve que mudar a capa, trocando o enterro da Carmem Miranda pelo incêndio da Vogue. A edição se esgotou no mesmo dia.
Para reforçar cada vez mais o andamento de sua revista, Adolpho
Bloch fez contratos com agências de fotografias no exterior e teve
a oportunidade de cobrir os fatos mundiais. A qualidade do material fotográfico
da própria Manchete deu muita vida à revista, que passou
a ser conhecida internacionalmente. Nessa altura, o Parque Gráfico
de Parada de Lucas ficara pronto e assim melhorariam a qualidade gráfica,
aumentando, assim, a produção do semanário.
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