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... É assim
que vou lembrar...
Daquele novo ciclo que se iniciava com a morte dos
velhos... pareciam tão velhos meus bisavós...
Todos de repente pareciam ter-se aproximado; velhos
parentes, tios-avós, primos, mesmo distantes. Todos se concentrando em torno
daquela pequena terrinha que os velhos deixavam pra trás. Saudades e histórias
dos tempos da “Maria-Fumaça”, cujo apito
ainda parece que ecoa .
Um pouco pra estes, um pouco pr’aqueles. Pra cada qual
seu quinhão.
Agora havia um pedaço de terra meio crua, onde podíamos
fazer qualquer coisa. Mas, fazer o que ?
Então, como quem
soubesse o que estava fazendo, alguém apareceu com uma enxada velha,
meio enferrujada e começou a lavrar o chão.
Pra que ? Não se sabia, mas não podíamos deixa-lo só.
Logo outras enxadas mais novas se juntaram, e pás, e
carriolas, e o suor dos rostos corria. Alguns brincando, outros ralhando e
alguma coisa mágica começava a acontecer. Os frutos começaram a surgir e amamos
colhe-los. Nos orgulhamos...
Às vezes o cansaço vinha e a vontade parecia que ia
sumindo em nós, mas sempre havia aquela
velha enxada que, no seu ritmo, seguia e nos inspirava a seguir.
Aprendemos a desejar os frutos da terra e a amávamos
pelas esperanças que nos dava. Nós, que nunca fôramos da terra, sentíamos sua
força correndo em nossas veias, como se tivéssemos nascido ali, como se não
houvesse lugar melhor pra nós.
Éramos cúmplices, todos nós, como membros de uma seita
que descobrira uma inverossímil passagem para o paraíso.
Nosso labor nos unia em objetivos simples mas comuns a
todos e onde sempre e todos éramos vitoriosos de uma forma ou de outra.
Objetivos simples, às vezes duros de alcançar, traçados por uma mente simples e
instintiva, que parecia estar ensinando seus filhotes a obter alimento.
Quantos planos concluídos, sonhos realizados, outros
apenas sonhados em conjunto, mas não menos saboreados, naqueles fins-de-tarde
de domingo, quando cansados aguardávamos a triste volta ao mundo real.
Quantas fogueiras eternas, quantas noites de luar !
Fomos felizes e sabíamos que seríamos felizes para
sempre, afinal, quando em torno da mesa farta saboreávamos o nosso
feijão, sabíamos que aquele era o melhor, que estaria eternamente semeado em
nossas almas, pronto para brotar, pois
era um presente de todos nós para cada um de nós.
E cantávamos...