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MÁGICA DE MENINO - 27/11/00
Magica de menino
Chega ao Brasil o terceiro livro de Harry Potter, o garoto
que conquistou uma legião de fãs
Luís Guilherme Gomes, de 13 anos, vive na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, e estuda no tradicional Colégio São Bento. Ali, apenas rapazes são aceitos. Gosta de ler e é fã de Agatha Christie. Pedro Betti mora em São Paulo, está na 6ª série e suas matérias favoritas são matemática e ciências. Maria Fernanda Spinola e Castro, de 9 anos, também paulistana, não sabe se quer ser escritora ou médica. Maurício Maia, gaúcho de 9 anos, gosta de navegar na internet e é freqüentador assíduo da biblioteca da escola. Rodolfo Vieira de Melo mora no Recife, curte quadrinhos e filmes em vídeo. Além das diferenças e dos dilemas infanto-juvenis, há algo que os une: um amigo em comum. É o mago Harry Potter, personagem da série de livros criada pela escritora escocesa J.K. Rowling. São meninos e meninas que se juntam a uma turma responsável pela compra de 340 mil cópias dos dois primeiros volumes da saga apenas no Brasil. Essa garotada faz parte da imensa tropa internacional de fãs, consumidores de 50 milhões de exemplares no planeta. O jovem feiticeiro é hoje o maior fenômeno do mercado editorial no mundo.
A autora Rowling transformou obras supostamente infantis em best-sellers lidos até por adultos. Ao todo, serão sete livros para acompanhar Harry da infância ao final da adolescência. Os dois primeiros, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta venderam no Brasil, respectivamente, 190 mil e 150 mil unidades. No dia 1º de dezembro, a editora Rocco põe nas lojas mais um capítulo, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (e depois deste será a vez de Harry Potter e o Cálice de Fogo). A tiragem inicial é um recorde para a Rocco: 100 mil cópias. A aparição do novo Harry Potter provoca excitação antecipada. Na livraria virtual Submarino, O Prisioneiro de Azkaban encabeça a lista dos mais vendidos antes mesmo de ser lançado nas prateleiras.
Há casos de identificação física com o personagem. Quando viu a capa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, adotado na 7a série do Colégio São Bento, o carioca Luís Guilherme não teve dúvidas: "Sou eu, professora. Agora faz um raio aqui na minha testa", brincou. Magrinho, com os cabelos arrepiados e óculos remendados com fita adesiva, esse leitor só não tem a cicatriz na testa, marca registrada do personagem. O universo de Harry Potter mistura-se aos problemas reais da meninada. "A gente pode comparar a ficção com nossa vida", diz o jovem Pedro Betti. "Harry vai para a escola, tem colegas, professores chatos e até joga um esporte parecido com o futebol", resume. O entusiasmo é cativante. A paulistana Maria Fernanda leu A Pedra Filosofal três vezes e A Câmara Secreta quatro.
Somando tudo, são 1.937 páginas sem ilustrações, um feito para a idade dela. Fernanda sabe de cor o nome de todos os capítulos e aponta, sem titubear, as melhores passagens. "Tem magia, aventura e suspense", diz. "Amei." Já avisou a mãe: quer um exemplar de O Prisioneiro de Azkaban no dia do lançamento, sem desculpas esfarrapadas. O gaúcho Maurício está tão ansioso que mandou e-mails à editora Rocco para saber da triunfal chegada do novo Harry. Ele confessa que a princípio se assustou com o tamanho dos livros, mas depois tirou de letra. Estava acostumado com publicações menores e ilustradas - entre seus autores favoritos está Ziraldo. E o que Ziraldo tem a ver com Harry Potter?
Ele também leu J.K. Rowling. Indagado sobre o segredo do sucesso da autora no Brasil, tem uma justificativa: a maciça campanha de marketing. "A editora fez barulho para chamar a atenção, e o brasileiro ainda tem um certo espírito de imitar os americanos", afirma. Ele decidiu conhecer Harry Potter ao ver seus dois sobrinhos encantados. Comprou A Pedra Filosofal e deu o braço a torcer: "Rowling é uma boa narradora, escreve com humor e graça". Há cada vez mais gente grande entrando na onda. Ana Paula de Barros Jorge, professora de português do Colégio São Bento, no Rio, ficou espantada com o falatório entre os alunos. "Nunca vi interesse tão grande", conta. Depois que a escola indicou Harry Potter, exemplares passeavam nas mãos de crianças de todas as séries.
Num ponto, pais, professores e crianças concordam: Harry agrada até a quem não gosta de ler. O exemplo do pernambucano Rodolfo Vieira de Melo comprova a tese. Aos 9 anos, o menino não era afeito a livros. Topou com o primeiro da série e deu-se a mágica. Logo que A Câmara Secreta chegou às lojas em agosto, lá estava ele atrás de uma cópia. "Devorei os capítulos em dez dias", lembra. Para alegria de Rodolfo, mais aventuras estão a caminho. Apenas para aguçar a imaginação dos fãs, eis um breve resumo do que vem por aí: em O Prisioneiro de Azkaban, Harry estará às voltas com um perigoso bandido foragido da penitenciária dos magos. O resto da trama é parte do mistério.
O feitiço da leitura
J.K. Rowling é uma ótima contadora de histórias. Antes de criar Harry Potter, deve ter lido tudo o que existe de melhor em literatura infanto-juvenil: contos da mitologia, lendas folclóricas, clássicos ingleses, J.R. Tolkien e tantos outros. Sinais dessas obras estão espalhados pelas páginas dos livros de Harry Potter, em que há todos os ingredientes necessários para agradar a jovens leitores. A trama tem fantasia, mistério, magia, humor e ironia. É muito bem narrada, cheia de pontos de suspense que prendem a leitura. Há uma crítica inteligente ao universo dos adultos, sejam eles pais, sejam professores da escola. Os personagens são bem construídos. O texto é farto em detalhes, minúcias e descrições. Enredos de fantasia como esse provavelmente fazem ainda mais efeito em países anglo-saxões, com tradições antigas de histórias de bruxaria e magia - o mago Merlin e a fada Morgana são bons exemplos disso. Mas a mistura hábil de ingredientes e o texto fluente fazem com que Harry Potter seja atraente para leitores de todas as nacionalidades e também de várias idades. É compreensível, então, que o mago se tenha tornado uma febre.
Mas, apesar de ser uma escritora muito competente e criativa, J.K. Rowling não está escrevendo obras-primas literárias. Seu estilo é descompromissado e de fácil leitura. Além disso, parte do segredo está no marketing, no modismo que se criou em torno do personagem. Vivemos um tempo de fenômenos efêmeros, que vêm com força, dominam o panorama por um período e depois acabam. O desenho animado Pokémon (uma bobagem) é um deles. São modas que têm força impressionante, mas poucas chances de se tornar bens duráveis. Vejo Harry Potter dessa maneira: é um fenômeno de nosso tempo, mas sem fôlego para virar um clássico. Até porque são livros que estão mais para entretenimento que para literatura. De qualquer forma, são bom entretenimento.
Na verdade, o grande feito de Harry Potter é chamar milhões de crianças para o hábito da leitura. Numa era em que há informação por todos os lados, o fato de jovens estarem se debruçando sobre volumes de muitas páginas sem ilustrações é fabuloso. A autora diz que vai escrever, ao todo, sete livros. Se as crianças lerem todos, será ótimo. E se, depois disso, partirem para outras histórias, melhor ainda. O fenômeno de Harry Potter serve para mostrar que os pequenos leitores não são nada bobos e conseguem largar os videogames - desde que lhes seja oferecida uma boa alternativa. Se o jovem mago tiver a capacidade de formar novos leitores, J.K. Rowling já está de parabéns.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Tatiana Belinky
Um caldeirão cheio de ouro.
Em julho passado, quando Harry Potter e o Cálice de Fogo foi publicado na Europa e nos Estados Unidos, J.K. Rowling declarou: "Eu faria tudo para impedir que Harry se tornasse um fast-food e aparecesse em produtos nas prateleiras do mundo inteiro. Esse é meu pior pesadelo". Tarde demais. Hoje, o personagem é uma marca registrada, pronta para dominar lojas, cativar pequenos compradores e consumir o dinheiro dos pais. Tudo por obra da própria escritora, que vendeu à Warner Brothers todos os direitos sobre o personagem - exceto aqueles sobre a publicação dos livros, pertencentes à editora inglesa Bloomsbury. Isso significa que, a partir deste Natal até o fim do ano que vem, Harry Potter não terá um dia de trégua. Nos próximos 12 meses, a superexposição do personagem subirá às alturas.
Muita coisa acontecerá no período. A agenda do mago prevê para dezembro, nos EUA, o lançamento dos primeiros produtos com a marca Harry Potter - roupas, lancheiras e comidas industrializadas. No primeiro semestre de 2001 as livrarias brasileiras recebem Harry Potter e o Cálice de Fogo. Em junho, início das férias de verão no Hemisfério Norte, chega às lojas européias e americanas Harry Potter e a Ordem da Fênix, quinto volume da saga. Em novembro, no feriado de Ação de Graças (um dos mais celebrados dos EUA), o menino invade o cinema com um filme inspirado em Harry Potter e a Pedra Filosofal. E, a partir daí, a Warner Brothers e seus parceiros de licenciamento (inclusive a brasileira Imagine Action) prometem uma enxurrada de artigos com o rostinho do garoto, para o prazer dos leitores fanáticos.
Os eventos mais aguardados são, sem dúvida, o quinto livro e o filme. Sobre Harry Potter e a Ordem da Fênix pouco se sabe. "J.K. Rowling nem começou a escrever", despista Colette Whitehouse, chefe do departamento de publicações infantis da Bloomsbury. Ela acrescenta que o contrato da escritora estabelece certa liberdade nos prazos de entrega dos originais. "Portanto, é impossível prever também a data em que sairá o sétimo (e último) romance da série." O longa-metragem, orçado em US$ 130 milhões, ainda existe apenas no roteiro - mas as fofocas já rondam o set. Um dos rumores dá conta de que os atores mirins estariam sendo mal pagos. A pechincha nos salários seria reflexo do excesso de candidatos. Foram 40 mil crianças cadastradas, interessadas em fazer qualquer papel. Boa parte do elenco já está definida, e o diretor Chris Columbus (de Uma Babá Quase Perfeita e Esqueceram de Mim) quer começar as filmagens no início do ano que vem.
Tantas novidades em torno de Harry Potter serão suficientes para vitaminar ainda mais os números - já gigantescos - que envolvem o personagem. Os 50 milhões de livros vendidos em todo o mundo e alguns produtos derivados renderam US$ 480 milhões. Na semana passada, a lista do jornal britânico Sunday Times com os mais endinheirados do Reino Unido trouxe J.K. Rowling como a mulher com a maior renda no país. Passando à frente até mesmo da rainha, faturou US$ 35 milhões no ano passado. Em todo o planeta, ela vai quebrando recordes. Harry Potter e o Cálice de Fogo vendeu 370 mil cópias apenas no primeiro dia de comercialização na Grã-Bretanha. Na China, aonde a série chegou em outubro, a tiragem inicial dos três primeiros livros (editados simultaneamente) superou 600 mil exemplares. No Japão, Harry Potter e a Câmara Secreta, publicado em setembro, deve ultrapassar os 840 mil livros vendidos do primeiro volume. E, há duas semanas, um raro exemplar da primeira tiragem inglesa de Harry Potter e a Pedra Filosofal (modestas 500 cópias lançadas em 1997) foi leiloado por US$ 8.500. O poder do feitiço de Rowling impressiona.
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