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A  MÁGICA  DE  ATRAIR  LEITORES
Fenômeno editorial, a série de romances do menino-bruxo
 Harry Potter chega ao Brasil

Carlos Graieb

  Era uma vez uma moça de longos cabelos ruivos chamada Joanne K. Rowling. Em 1996, às vésperas de completar 30 anos, ela estava mais para gata borralheira do que para princesa encantada. Divorciada e falida, passara diversos anos na base do seguro-desemprego. Embora vivesse na Escócia, país famoso pelos seus castelos, sua casa era tão velha que não tinha calefação. O frio castigava sua filhinha. Para aquietar a menina, ela a punha num carrinho de bebê e rumava para o café da esquina, aquecido e confortável. Enquanto a criança dormia, Joanne escrevia um romance infantil. Contava a história de um bruxo mirim, Harry Potter, que tinha uma estranha cicatriz em forma de raio na testa. Depois de muito trabalho, ela completou o livro. Nove editoras recusaram os originais. A décima, que os aceitou, pagou uma bagatela como adiantamento. E foi aí que... Abracadabra! Harry Potter mostrou ser capaz de um poderoso feitiço. Ele virou mania entre as crianças inglesas. Ganhou em seguida os Estados Unidos. E não parou de conquistar leitores, desembarcando em diversos países com sua vassoura voadora. Nesta semana, com o lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal (tradução de Lia Wyler; Rocco; 263 páginas; 22 reais), o jovem mago chega finalmente ao Brasil. Todo mundo está de olho para saber se ele repete sua principal mágica: tirar crianças da frente da televisão e mergulhá-las na leitura de um saboroso romance.

  Desde que ela mesma se converteu em Cinderela, J.K. Rowling tratou de dar seguimento às aventuras de Potter. No todo, promete escrever sete livros, cada um cobrindo um ano de aprendizado do personagem na vida de feitiçaria. O segundo e o terceiro já saíram e o quarto está previsto para ser lançado em julho na Grã-Bretanha. O sucesso é estrondoso. No mundo todo, a série vendeu 30 milhões de exemplares. Para se ter uma idéia, tal número supera em muito a produção anual de livros juvenis no Brasil, que tem ficado em torno dos 20 milhões, segundo a Câmara Brasileira do Livro. Nos Estados Unidos, onde a febre alcançou suas maiores proporções, Harry Potter provocou uma revolução no mercado. Os três livros do mago foram parar no topo da prestigiosa lista de best-sellers do jornal The New York Times. Arrastaram consigo outras obras de ficção infantil. É a primeira vez na história que romances para crianças ocupam tanto espaço entre os mais vendidos, deixando para trás campeões como John Grisham. O mais curioso é que os adultos também aderiram ao fenômeno. Segundo a imprensa americana, uma antiga tradição
foi reativada: famílias inteiras se reúnem para ler histórias em voz alta.

  Centenas de artigos já foram escritos para desvendar o segredo de Harry Potter. Na verdade, não há segredo. Boa escritora, J.K. Rowling criou um personagem com o qual as crianças conseguem se identificar. Além disso, utilizou com muita graça os elementos tradicionais dos contos de fadas, com seus seres imaginários e peripécias fantásticas. Filho de feiticeiros, Harry fica órfão quando seus pais são mortos pelo terrível Voldemort, o megavilão da saga. Ele é entregue para um casal de tios, que o tratam com crueldade. Ao completar 11 anos, porém, Harry recebe uma carta que o convida a se tornar freqüentador da escola de bruxaria Hogwarts, cujo lema é "Não cutuque um dragão adormecido". Localizada numa dimensão paralela, Hogwarts exige que os alunos se vistam com capa e chapéu pontudo e ainda que leiam tratados como As Forças das Trevas: um Guia de Autoproteção. A escola expõe os bruxinhos a todo tipo de aventura. À medida que Harry Potter envelhece, as questões com que defronta também vão mudando. No quarto romance, ele arranja uma namorada. J.K. Rowling já avisou, também, que em breve ele terá de lidar com a morte de um amigo. Como notou o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim, num estudo clássico sobre os contos de fadas, o que importa nesse tipo de história não é a "moralidade", mas o sentimento de que todas as dificuldades, por maiores que sejam, podem sempre ser superadas. Harry Potter faz exatamente isso: supera as encrencas e chega fortalecido ao final de cada história. Por ser "convencional", no bom sentido, é que ele faz sucesso.

  Sucesso, entretanto, não significa unanimidade. Nos Estados Unidos, uma facção "anti-Potter" já se organizou. Irritadas com professores que passaram a ler os livros para seus alunos, famílias de religiosos entraram com ações na Justiça dizendo que bruxaria é um tema que deveria ser proibido nas salas de aula. Há processos em oito Estados e, em breve, a Justiça terá de tomar uma decisão a respeito do assunto. Outra inimiga de J.K. Rowling é a escritora americana Nancy Stouffer. Ela acusa sua concorrente escocesa de ter plagiado o livro The Legend of Rah and Muggles, lançado em 1984. Segundo Nancy, não apenas o sobrenome Potter foi roubado de sua obra como também a palavra "muggles". Rowling utiliza esse termo para se referir aos humanos que não têm poderes mágicos. A tradução brasileira optou por "trouxas", por oposição a bruxos.

  Se vencer - o que é pouco provável - , Nancy Stouffer poderá receber uma indenização milionária, já que os negócios em torno de Harry Potter se expandem em velocidade vertiginosa. Existem brinquedos sendo fabricados inspirados na série e Hollywood comprou os direitos de filmagem dos dois primeiros livros. Até o começo deste ano, ninguém menos do que Steven Spielberg estava com o projeto nas mãos. Mas o desejo de J.K. Rowling de dar palpites no roteiro acabou afastando o cineasta, que prefere trabalhar com total independência. No lugar dele, entrou o diretor Chris Columbus, de Uma Babá Quase Perfeita e O Homem Bicentenário. No Brasil, o maior desafio que Harry Potter terá de enfrentar será a concorrência de um outro menino-bruxo: Nino, o herói de Castelo Rá-Tim-Bum. Nascido como programa de televisão da Rede Cultura, Castelo Rá-Tim-Bum também gerou livros de bastante sucesso. A série de doze histórias, lançada pela editora Companhia das Letras, vendeu mais de 250.000 exemplares até o momento. Os números mostrarão se o feitiço escocês é mais forte do que a mandinga nacional.




Um gol de placa da ficção infantil

Pedro Bandeira*

   Muita gente há de atribuir o megassucesso de Harry Potter à moda do esoterismo e da magia que assola o mundo literário, mas o segredo desse gol de placa é o profundo conhecimento que a autora possui da psicologia das crianças a quem pretende agradar: a faixa entre os 9 e os 12 anos, uma ponte insegura que separa a infância, quando todo mundo é "uma gracinha", da adolescência propriamente dita, quando se descobre que os adultos não sabem "naaaada" da vida. Essa é uma fase descolorida, em que o ser humano não se sente coisa alguma. Detesta o banho (passa uma hora fechado no banheiro e com o chuveiro aberto, saindo depois com o cabelo tão ensebado quanto antes). Volta e meia rompe com os pais  ("Nesta casa ninguééém me compreende!")  e fecha-se no quarto por horas. Cala-se como uma esfinge na presença dos adultos, mas papagueia sem parar com o amigo do peito. Pendura-se no telefone, usa o boné ao contrário, quer fazer piercing e tatuagens e odeia quando a tia vem dar-lhe beijos lambuzados e dizer "Como está grande!". Mas, nessa idade, o interior da alma é cheio de sonhos, de fantasias. E o jovem adormece sonhando com a posse de uma lâmpada mágica que lhe forneça um gênio capaz de realizar todos os seus desejos. Joanne Rowling sabe o que pensam, imaginam e sonham esses pré-adolescentes e lhes oferece um prato cheio de modelos com os quais eles podem se identificar.

  Harry Potter e a Pedra Filosofal já começa com um achado fabuloso: o personagem é abandonado ainda bebê na casa de um casal de tios que se comportam como a madrasta da Cinderela (obrigam-no até a dormir num armário sob a escada!). Isso faz com que o protagonista ganhe de imediato a piedade e a simpatia do leitor. A ação central transcorre quando o menino, já com 11 anos, descobre que é um bruxo (aliás, a humanidade estaria dividida em Trouxas, como eu e você, e Bruxos, como Harry Potter e sua turminha). Ele passa, então, a estudar numa escola de bruxinhos, onde se vê às voltas com varinhas mágicas, capas de invisibilidade, um espelho que reflete a realização dos desejos de quem nele se mira, centauros, dragões, duendes, unicórnios e o que mais se possa imaginar. A ação lembra, em certos momentos, os filmes de Indiana Jones, com a diferença de que o protagonista não é um adulto como Harrison Ford, mas um menino da idade do leitor. O livro merece o sucesso mundial que obteve. Não será diferente no Brasil. Nós, autores brasileiros de literatura para jovens, devemos dar a mão à palmatória: a senhora Rowling conhece o caminho das pedras.

* Pedro Bandeira é autor de livros para crianças e adolescentes