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O EFEITO POTTER - NOVEMBRO DE 2000
Pequeno bruxo cativa os adultos e leva crianças a novos autores
Flávio Moura
A exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos e na Europa, o fenômeno Harry Potter no Brasil vem acompanhado de efeitos inesperados. O primeiro deles é a conquista de adeptos no mundo adulto. Muitos pais aderiram à febre por tabela, mas até aqueles que não têm uma criança em casa começam a se curvar ao pequeno bruxo. "Harry Potter nos faz lembrar do menino que fomos", diz, por exemplo, o ator Miguel Falabella, que já leu os três primeiros livros da série. Todos os meses, cerca de 1.000 e-mails sobre Potter chegam à Rocco, editora que publica a obra no Brasil. Cerca de 20% são de adultos, ansiosos pelos próximos números ou surpresos com a reação dos filhos. O resto vem das próprias crianças. Já tendo lido os dois primeiros títulos da série, muitas vezes elas escrevem para pedir dicas de livros parecidos. É aí que entra o segundo efeito colateral da mania Potter. Uma série de escritores de literatura infanto-juvenil vem pegando carona na vassoura do jovem mago, graças à descoberta dessa nova brincadeira - a leitura. À espera do terceiro volume, que chega em dezembro, as crianças vão às livrarias em busca de obras com temática semelhante. E acabam encontrando escritores fundamentais do gênero, que décadas atrás já haviam criado mundos tão encantados quanto aquele imaginado pela "mãe" de Potter, a escocesa J.K. Rowling.
Mestres no assunto, os autores Roald Dahl, C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien compõem a linha de frente desse time. Desde abril, quando Potter chegou ao Brasil, seus livros, lançados em sua maioria pela editora Martins Fontes, têm experimentado aumentos consideráveis nas vendas. Da mesma maneira que Rowling, Tolkien e Lewis escreveram sagas ambientadas em terras de fantasia. Sem desmerecer Rowling, pode-se dizer que eles foram ainda além: Tolkien chegou a conceber uma linguagem inteiramente nova para sua terra mítica de elfos e anões. Quanto a Roald Dahl, embora não tenha feito saga alguma, criou alguns dos personagens mais queridos pelos ingleses. No início do ano, ele foi eleito o escritor preferido do país, à frente de Shakespeare e, claro, de J.K. Rowling, que ficou em segundo lugar. Seu livro A Girafa, o Pelicano e Eu (tradução de Monica Stahel; Martins Fontes; 80 páginas; 12 reais) acaba de ser lançado em português. É bom, mas não tanto quanto Gremlins e A Fantástica Fábrica de Chocolate, seus textos mais conhecidos. Adaptados para o cinema, ambos foram sucesso de bilheteria. Harry Potter segue no mesmo caminho. O filme baseado nas aventuras do personagem já está em produção e tem estréia prevista para novembro de 2001. Para ser literalmente um estouro mundial, Harry Potter precisa emplacar na China. A um dos maiores mercados do mundo, os três primeiros romances de J.K. Rowling chegaram há uma semana, com tiragem de 600 000 cópias no total, as maiores desde o livro vermelho de Mao Tsé-tung. As vendas ainda não corresponderam.
O feitiço das sagas
A saga é um gênero literário que nasceu na Islândia, no século XII, e logo se difundiu em outros países nórdicos. A princípio de cunho realista, as histórias de clãs e de guerreiros pouco a pouco incorporariam elementos míticos. A influência da saga pode ser vislumbrada nos poemas e romances de cavalaria da Idade Média, especialmente naqueles produzidos entre os anglo-saxões. C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien reprocessaram essa tradição. J.K. Rowling costuma citar os dois autores como suas principais referências na criação da saga de Harry Potter, que deve estender-se por sete livros. Crônicas de Nárnia (1950-56), obra mais conhecida de Lewis, também tem sete partes. Descreve um reino mágico que quatro crianças descobrem no interior de um armário. Tolkien é autor da famosa trilogia O Senhor dos Anéis (1954-1955). Seus enredos são ambientados num passado povoado por elfos e anões. Os livros de Tolkien se esgotaram no Brasil nas últimas semanas. A editora Martins Fontes promete recolocá-los em circulação em novembro.
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