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O MENINO  QUE  CONQUISTOU  O  MUNDO

Depois de vender 28 milhões de exemplares em 31 idiomas, chega ao
Brasil o primeiro livro da série escrita pela escocesa J.K. Rowling,
 Harry Potter e a Pedra Filosofal

  A história do garoto que descobre ser um feiticeiro - com direito a vassouras voadoras, livros de poções, varinha mágica e tudo o mais - foi a maior surpresa do último ano no mundo editorial. Dos três volumes já publicados da série, todos foram campeões de venda. J.K. Rowling, a autora - uma escocesa até então completamente desconhecida -, viu seu nome figurar nos rankings mais importantes do ano passado: ocupou os três primeiros lugares da lista do Times, de Londres, e dos americanos The New York Times e Wall Street Journal. Vendeu 28 milhões de exemplares. O episódio ganhou dimensões ainda maiores por se tratar de livro infantil, indicado para crianças de 9 a 12 anos. O herói, de apenas 11 anos, chega ao Brasil com a expectativa de repetir o feito. Harry Potter e a Pedra Filosofal começa a ser vendido nesta segunda-feira, editado pela Rocco.

  Um sinal de que também se aposta no sucesso da série de livros no Brasil é a tiragem inicial de 30 mil exemplares - dez vezes superior a um lançamento-padrão. Nos Estados Unidos, Harry Potter não só se transformou em best-seller como também foi festejado por ter conseguido tirar milhares de crianças da frente da televisão e dos videogames e colocá-las diante de livros de mais de 200 páginas, com pouquíssimas ilustrações (na edição brasileira, não há ilustração alguma). Além disso, o personagem deu novo fôlego à literatura infantil americana - a venda de livros para crianças cresceu 24% em 1999, contra 2,6% do segmento dos livros para adultos. Tudo isso, garante-se, por conta das aventuras de Harry Potter. J.K. Rowling tornou-se uma celebridade de proporções hollywoodianas: vive nas páginas dos jornais, mas raramente dá entrevistas. É perseguida por pequenos fãs nas ruas de Londres, onde mora, e ganha muito dinheiro. Na lista das pessoas mais ricas do mundo do entretenimento do ano passado, publicada pela revista
Forbes, J.K. Rowling apareceu em 25º lugar.


Gente grande:

Os números da série surpreendem

 - Já foi vendida para 42 países

 - As ações da editora Bloomsbury tiveram uma valorização de 176% em um ano,
 na Bolsa de Londres

 - Rowling é a primeira autora infantil a chegar ao topo da lista de livros mais
vendidos do jornal The New York Times


Cenários inspiradores:

 - Joanne K. Rowling viveu três anos no Porto, em Portugal

 - A escritora, de 35 anos, nasceu na Escócia e tem uma filha

 - Nos anos 90, morou em Portugal, onde dava aulas de inglês

  - O personagem Harry Potter teria "nascido" no Porto, durante o turbulento relacionamento da escritora com um jornalista português


O universo do garoto:

Palavras para entender a história

 -Trouxas: como são chamados os humanos normais, os não-feiticeiros

 -Quadribol: o esporte preferido dos feiticeiros, semelhante ao beisebol, jogado
com vassouras

 -Nimbus 2000: último modelo no mercado, é a vassoura mais moderna à
disposição dos feiticeiros

 -Hogwarts: a escola de feitiçaria que Harry freqüenta

 -Voldemort: o grande vilão, uma espécie de Darth Vader da bruxaria




  Mas o que tem esse garoto de tão especial para criar tamanha algazarra? Em primeiro lugar, ele pode fazer mágica. No início de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o menino nem mesmo sabe que tem poderes especiais. É apenas um garoto descabelado que circula pela escola com óculos cujas lentes são grudadas com fita adesiva. Até onde se sabe, os pais morreram num acidente de carro quando ele era pequeno e, desde então, vive com um casal de tios e um primo. Os tios são dois carrascos. Fazem Harry dormir num quartinho debaixo da escada, não o deixam comer sobremesa e vivem mimando o filho, Dudley, um fedelho de marca maior. Às vésperas de seu 11º aniversário, Harry recebe a visita de um sujeito grandão chamado Hagrid (que vai se tornar um grande amigo) e descobre a história real: ele é um feiticeiro, filho de dois importantes feiticeiros. Na verdade, os pais foram mortos por Voldemort, o vilão da história. Mas as feitiçarias de Voldemort não conseguiram matar Harry, que era apenas um bebê. Tudo o que lhe resta do episódio é uma cicatriz na testa em forma de raio.


  Daí em diante Harry entra no mundo dos feiticeiros - um universo que os humanos normais nem sabem que existe. É convidado a ir para a escola mais renomada de todos os tempos, estudar bruxarias, aprender a voar em vassouras e usar uma capa com aquela pinta de Merlin, o Mago. Lá vai fazer amigos (e também alguns inimigos), ter provas semestrais, participar de competições esportivas e, no futuro, enfrentar os podres poderes de Voldemort. Na verdade, críticos e pedagogos que analisaram o livro dizem que esse é o truque de Harry Potter e a Pedra Filosofal: apesar de ter grandes doses de fantasia, a história traz também um mundo que é comum a todas as crianças - professores chatos, aulas divertidas, o dia-a-dia de um colégio e os primeiros namoricos adolescentes.


  De qualquer forma, não houve unanimidade. Americanos mais religiosos partiram para o ataque afirmando que uma história de bruxaria não é conveniente para crianças, ou que episódios de morte (anunciados para os próximos volumes) são inadequados. Recentemente, a escritora americana Nancy K. Stouffer acusou J.K. Rowling de plagiar personagens e enredo de seu livro The Legend of Rah and Muggles, publicado em 1984. Mas nada disso afetou a trajetória de Harry Potter. O garoto saiu ileso. A editora Rocco já comprou os dois próximos livros da série: Harry Potter e o Quarto dos Segredos e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. O segundo deverá ser lançado no início do ano que vem - ou antes ainda, se o primeiro volume confirmar o sucesso esperado.


  As livrarias inglesas e americanas já estão aceitando pedidos antecipados de compra do quarto volume, Harry Potter and the Doomspell Tournament, que chega às prateleiras em 8 de julho. A febre Harry Potter é tão grande que, a mais de três meses do lançamento, o título inédito já ocupa o segundo lugar na lista dos mais vendidos da livraria virtual Amazon. J.K. Rowling tem contrato com a editora inglesa Bloomsbury para escrever, ao todo, sete livros com aventuras do garoto - a idéia é que ele esteja um ano mais velho a cada nova publicação, e assim vá crescendo junto com os leitores. E, como seria de esperar, os direitos autorais do primeiro livro já foram vendidos para o cinema (Warner) e a versão filmada deve chegar às telas em 2001. Steven Spielberg rejeitou o convite para dirigir o longa-metragem por estar ocupado com outros projetos. O escolhido foi Chris Columbus, assinatura de grandes sucessos infanto-juvenis, como Esqueceram de Mim, Uma Babá quase Perfeita e O Homem Bicentenário.


  Talvez a última pessoa a imaginar que Harry Potter atingiria tal dimensão fosse a própria autora. Joanne Kathleen Rowling, uma escocesa de 35 anos, passava por maus momentos quando começou a escrever o primeiro livro da série, em 1990. Professora, estava desempregada e acabara de perder a mãe. Vivia à custa do seguro-desemprego. Para piorar, casou-se com um sujeito que sumiu do mapa quando soube que ela engravidara. "Mergulhei no mundo de Harry Potter para esquecer a bagunça que estava minha vida", diria ela mais tarde. Antes de conseguir uma editora que publicasse a história, o que só aconteceu em 1997, foi rejeitada por cinco outras. O diretor da própria Bloomsbury, Niguel Newton, conta que Rowling teve sorte: "Nunca editamos livros infantis. Li os originais porque aconteceu de estarem no topo da pilha, e adorei". Ele, da mesma maneira que a escritora, não poderia antecipar o sucesso que os livros fariam. Pais de crianças entre 8 e 15 anos também foram surpreendidos ao ver os filhos disputando novos volumes da série. E professores de escolas primárias viram os alunos se dedicar à leitura de bom grado, sem reclamações. Por se tratar de Harry Potter, tudo leva a crer que a história é mágica.

                                                                                                      Beatriz Velloso