A História da Fada e do Mago




Era uma vez... dois irmãos, João e Maria. Eles moravam numa casinha à beira de um rio - a casinha era cercada de mangueiras altas, que davam muita sombra. O pai trabalhava muito e a família vivia em paz porque nunca lhes faltava o que comer. Maria e João eram bonitos e fortes. Gostavam de pescar e nadar no rio, pela manhã. À tarde, subiam nas árvores para espiar o sol se pôr atrás da montanha, que ficava logo em frente. Eles gostavam também de brincar com seus amigos, de correr pela mata, de apanhar frutas, de... bem, aí é que a história começa a ficar triste. Eles só não gostavam de uma coisa: TRABALHAR.
De manhã pulavam da cama deixando tudo em desordem: a roupa pelo chão... a toalha fora do lugar e quando a mãe pedia para tirar a mesa do café e ajudar a enxugar a louça, João e Maria diziam sempre: "Hoje não posso, mamãe, porque meus amigos estão me esperando para brincar". E lá íam eles correndo, deixando a mãe fazer tudo sozinha...
Um dia... era um dia de grande arrumação na casa, já muito cansada de tanto varrer e espanar, a mãe de João e Maria disse: "Que pena que eu não tenho nenhuma fada para me ajudar!" Maria perguntou: "O quê são fadas?"
- Fadas, disse a mãe, são pessoas pequeninas, mas muito ativas e prestativas, que estão sempre dispostas a ajudar a todos.
- Ora, mamãe, respondeu Maria, podíamos bem arranjar uma para nós pois assim ela poderia lhe ajudar. Onde moram estas fadas?
- Não sei, minha filha, porque nunca as vi. Nunca aparecem. Chegam a quem está precisando de ajuda, trabalham, fazem tudo e desaparecem não sei para onde.
João ficou muito pensativo e depois disse à mãe: "Ora, isto não é possível!"
- O quê não é possível?
- Se as fadas aparecem e ajudam é porque devem morar em algum lugar. Onde será que moram as fadas, mamãe?
- Não sei, respondeu a mãe. Se você deseja mesmo saber... terá que perguntar à velha coruja, que é muito sábia e mora em cima do grande cogumelo da floresta.
Nesta noite, João e Maria não conseguiam pegar no sono. Ora, pensavam eles, se nós conseguirmos uma fada, ela poderá fazer o nosso trabalho e mamãe não nos pedirá mais para ajudá-la em casa. Poderemos brincar o dia inteiro. É isto mesmo. Vamos hoje à floresta contratar uma fada na casa da velha coruja.
Maria deu um pulo da cama, vestiu-se e foi até a janela. Uma lua linda e cheia brilhava no céu por cima das mangueiras.
- Que bom, disseram os dois irmãos, hoje é lua cheia!
Pé ante pé desceram as escadas, devagarinho para não fazer barulho e acordar seus pais. Abriram a porta da cozinha e sairam para o quintal.
A noite estava clara e o caminho do bosque todo aceso de lua. Pulando as pequenas margaridas amarelas que beiravam a estrada, João e Maria seguiam a trilha do mato até a beira do charco, onde morava um sapo martelo e sua família.
Maria só pensava na fada. Era preciso encontrá-la o mais depressa possível, pois sua mãe já estava ficando velha e era preciso alguém para ajudá-la. Sentaram-se um pouco para descansar. Já tinham andado muito.
Tac... tac... tac... tac... tac... Os sapos estavam em grande cantoria e Maria ficou ali um instante conversando com eles. Os sapinhos já cantavam tanto quanto os pais e davam saltinhos de contentes numa noite tão bonita. Com os corações batendo muito depressa, continuaram a andar. Não é que estivessem com medo. Não, isto eles não tinham. Mas... era melhor que sua amiga Marta ou então se os amigos Pedro e Alfredo estivessem com eles. Era muito melhor caminhar pela floresta com outras pessoas. Seria tão bom se eles pudessem conversar com alguém.
Talvez seus amigos também estivessem precisando de algumas fadas para ajudar as mães. Quem sabe teria sido melhor chamá-los?
A verdade é que eles sentiam mesmo um pouco de medo. Agora estavam passando perto de um bambuzal enorme que ficava atrás do charco dos sapos. O vento soprava de mansinho nas folhas e estas faziam sombras engraçadas no chão. Pareciam bailarinas dançando com o barulhinho dos bambus, se remexendo todos.
- Ah! disse Maria em voz alta, se tivesse alguém para brincar, seria muito melhor.
Quando ela acabou de dizer isto, um Saci-Pererê muito saliente pulou na frente e, rindo às gargalhadas, disse:
- Cá estou eu para brincar, meus amiguinhos!
- Um Saci-Pererê!
- Em carne e osso!
- Quem disse que nós somos seus amigos, Saci?
- Ora, claro que vocês são meus amigos. Vocês não são o João e a Maria que moram debaixo das grandes mangueiras e que gostam de brincar?
- Somos sim, respondeu João.
- Pois então, sou amigo de vocês!
- Por que você é nosso amigo, se nós não o conhecemos?
- Mas eu conheço vocês. Conheço todos os meninos que só vivem para brincar. Então vocês não sabem que eu sou o rei das brincadeiras? Trabalhar não é comigo. Só quero saber de pitar meu cachimbo e de brincar.
- Onde é que você mora? perguntou Maria.
- Moro em toda parte onde existe gente preguiçosa. Sou também o rei da preguiça, da desordem e do barulho.
Dizendo isoo, o Saci puxou seu cachimbo e sentou-se no chão.
- Mas se você é o rei da preguiça e não trabalha, quem trabalha para você?
O Saci deu outra gargalhada e perguntou a Maria: - Quem trabalha para vocês?
- Ora, respondeu Maria, quem trabalha para nós são os nossos pais.
O Saci dava cambalhoras de tanto rir. - Eu não disse que vocês se pareciam comigo? Vocês só gostam de brincar e têm pais que trabalham para vocês. Eu também só gosto de brincar e tenho todo mundo que trabalha para mim.
- Todo o mundo, perguntou Maria, como?
- Ora, se tenho fome, entro de noite numa cozinha e tiro o que quiser. Quem trabalhou para mim? A cozinheira. Se quero fumo, também tiro de alguém. Assim, todos trabalham para mim enquanto eu brinco, faço barulho e não deixo ninguém descansar.
- Mas isto é roubo, seu Saci-Pererê, e nós nunca...
O Saci neste momento já estava pulando muito longe, mas ainda gritou: Adeus, minha amiga Maria! Adeus, meu amigo João!
Eles ficaram sozinhos de novo na floresta. Ainda bem, pensaram, porque aquele Saci não era companhia nada agradável, chamando-os de amigos. Que horror! O que ele era mesmo era um ladrãozinho muito saliente... Mas será que ele tinha um pouco de razão? Na verdade eles também não gostavam nada de trabalhar...
Naquele momento uma nuvem estava passando em cima da lua e a floresta ficou tão escura que Maria desta vez, sentiu medo de verdade. Ora, meu Deus, por que inventamos de sair sozinhos esta noite? Agora temos de ir para a frente. Vamos, lua amiga, apareça de novo para nos mostrar o caminho da coruja sábia. Parece que a lua estava mesmo ouvindo os meninos. Dali a pouco a nuvem se afastou e a lua tornou a brilhar no caminho... Eles andaram ainda um pouco mais, té que ouviram um grito estranho.
Tu... Tuit... uuuuuuu....
- Que grito esquisito! Parece o grito de uma coruja, pensou Maria, e correu para o lado de onde partia o som.
- Tu... tuit... uuuuuuu... Quem está aí? Veio uma voz lá de cima da árvore.
Os meninos ficaram trêmulos de emoção. Aquela voz devia ser a da coruja sábia, pois debaixo da árvore, estava um cogumelo, como se fosse o trono de uma rainha.
- Se a senhora é a Coruja Sábia, eu... desejava... fa... lar-lhe, gaguejou Maria.
Maria e João esticaram bem o pescoço e viram, trepada num galho, muito bem instalada, a sábia coruja.
- Subam aqui, meus filhos, chamou a coruja e aconchegaram-se junto às penas que eram macias e quentinhas.
- Mamãe disse que a senhora sabe tudo!
- Tu... Tuit... Tu... talvez, respondeu a coruja, arregalando muito os olhos. Talvez. O que é que vocês querem saber?
- Nós queríamos que a senhora nos ensinasse onde arranjar uma fada para ajudar mamãe em casa...
- Uma fada? perguntou a coruja.
- É... uma fada para ajudar mamãe em casa... Ela trabalha muito e fica cansada, e quer que a gente ajude, mas nós queremos brincar e então não há ninguém para ajudar. Pensamos que talvez a senhora soubesse onde poderíamos encontrar uma fada...
- U... U... U... U... é isto que vocês querem? exclamou a coruja. Pois eu já lhes ensino onde encontrar uma fada para ajudar sua mãe.
- U... U... U... U... a coruja começou a rir fazendo a árvore balançar. Maria não sabia porque a coruja estava rindo e ficou meio aflita. Será que estava pedindo alguma coisa engraçada? e tornou a falar:
- Será que a senhora poderá me arranjar uma fada para ajudar a mamãe?
- Claro que posso, disse a coruja, agora muito séria: Vocês vão andando para aquele lado do charco dos sapos... depois passam o bambuzal... depois...
- Mas este é o caminho de nossa casa, disse Maria.
- Justamente. É lá que se encontra a fada.
- Ah! Se eu soubesse disso, não teria andado tanto.
- Se vocês soubessem teriam ficado em casa, não é? Bem, depois do bambuzal vocês encontrarão a nascente do rio que passa em frente de sua casa, não é mesmo?
- Isto mesmo, dona Coruja. A nascente forma o pequeno lago azul.
- Pois bem. Olhem dentro do pequeno lago azul da nascente, depois digam: "Fadinha do lago! Fadinha do lago! Fadinha do lago!" três vezes e então a fada lhes aparecerá.
Maria e João ficaram tão entusiasmados que saíram correndo sem nem se lembrar de dizer um "muito obrigado" à boa coruja. Quando chegaram ao pequeno lago azul da nascente, a lua brilhava tanto que a superfície da água parecia um espelho. Com os corações batendo de emoção aproximaram-se do lago, inclinaram-se para a água e gritaram com toda a força: "Fadinha do lago! Fadinha do lago! Fadinha do lago!". Olharam ansiosamente para a superfície calma da água, esperando surgir uma fada, mas... Oh! por mais que olhassem, só conseguiam ver seus rostos refletidos.
- Que história é essa? Com certeza não chamei direito, ou não gritei bastante alto. Fadinha do lago! Fadinha do lago! FADINHA DO LAGO!
Novamente o lago só lhe respondeu com o reflexo de seu próprio rosto.
Muito triste, Maria resolveu ir perguntar à coruja por quê a fada não aparecia.
- Dona Coruja, não vimos nada dentro do lago.
- Nada mesmo?
- Bem, só vimos nossos rostos, como se fosse um espelho...
- E que esperavam vocês ver, meus filhos?
- Queríamos ver a fada... como a senhora nos prometeu!
- E como acham que sejam as fadas? perguntou a Coruja.
- Mamãe disse que sãu umas criaturinhas prestativas...
- E a que vocês viram no lago são criaturinhas preguiçosas, não é verdade?
A coruja começou a rir baixinho e João achou esquisito. O que ela queria dizer com aquilo de criatura preguiçosa?
- Dona Coruja, disse ele, eu não fui ao lago azul para ver meu rosto e sim o de uma fada.
- Quem sabe você é um mago? Todas as crianças podem tornar-se Magos ou Fadas, é só quererem.
- É só querer?
- Claro, meus filhos, vocês se quisessem, poderiam acender o fogo, varrer a casa, pôr a mesa, arrumar seus quartos e ajudar sua mãe em outros serviços, não poderiam?
- Isto nós poderíamos fazer, mas preferiríamos mil vezes, ter uma fada trabalhando em nosso lugar!
- E o que ficariam fazendo da vida? Ficariam só brincando, brincando e cada vez mais preguiçosos e desmazelados como um Saci-Pererê?
- Ah! Isto não, dona Coruja. Nào queremos ser um saci, nem queremos ser amigos dele. Vamos embora.
A Coruja Sábia deu um pulo da árvore e veio parar na pequena clareira. Muito calmamente trepou no cogumelo, puxou Maria e João para perto e continuou a falar. Os meninos acharam graça naquilo. Por que a Coruja agora estava trepada num cogumelo? Parecia um trono! Maria, que queria ir embora porque a coruja a estava chamando de preguiçosa, quando viu a Coruja em cima do cogumelo falando com uma voz tão amiga, começou a achar que ela tinha razão.
- Sabe de uma coisa, meninos, disse a Coruja muito séria, vocês se parecem com o Saci-Pererê, aquele moleque preguiçoso, sujo, barulhento, desmazelado, que só sabe atrapalhar a vida dos outros.
- Deus me livre! ...eu não quero parecer com o Saci-Pererê, prefiro parecer uma Fada! exclamou Maria quase chorando.
- Agora sim! Isto é que é menina às direitas... volte para casa e lembre-se sempre do que acabou de dizer agora... e também quando precisarem de algum conselho venham aqui ao grande cogumelo da floresta, que é a minha casa, que nós poderemos conversar. Adeua!
Maria ficou tão contente quando a velha Coruja a chamou de Fadinha, que lhe deu um grande abraço quase derrubando a velhinha de seu cogumelo. As duas riram muito e Maira, depois de agradecer, correu para casa com João, prmetendo voltar para contar tudo.
Pelo caminho eles iam pensando no que havia acontecido. Debaixo do bambuzal encontraram de novo com o Saci-Pererê, mas desta vez ele estava muito calado e eles sabiam porquê. Naquele dia o molequinho tinha perdido bons amigos e estes amigos eram eles. Nada de amizade com gente preguiçosa!
Quando chegaram em casa começava a clarear. Era preciso agir depressa, senão sua mãe acordaria.
João acendeu o fogo.
Maria botou uma chaleira d'água para ferver.
Varreram a casa e botaram a mesa do café.
Depois foram para a cama e caíram num sono pesado e gostoso. Era a primeira vez que dormiam como FADA e MAGO. Sonharam que estavam dormindo no colo da velha Coruja, em cima do cogumelo...
Quando a mãe se levantou, pensando na trabalheira que tinha que fazer, levou um grande susto, ao ver tudo arrumadinho e até a chaleira no fogo.
Santo Deus! disse ela, será que por aqui pssou alguma fada?
De manhã a mãe contou a todos o milagre. Maria e João ficaram bem quietinhos, pois fadas e magos devem fazer tudo sem querer elogios, nem recompensas.
Por muitos e muitos dias aconteceu a mesma coisa. Eles faziam tudo sem sua mão saber. Até que um dia, ela descobriu e ficou mais contente ainda, porque a Fada e o Mago que a ajudavam todas as manhãs eram seus filhos, Maria e João.
Quando eles saíam para brincar com seus amigos, ensinavam a eles também a serem fadas e magos e muitas vezes, depois de ajudarem em casa, íam visitar a velha Coruja que os esperava em cima do grande cogumelo e contavam histórias e cantavam e dançavam porque estavam verdadeiramente felizes.
Tinham descoberto que quando se ajuda alguém, mesmo se isto custa um pouco, é que se é verdadeiramente feliz.