ALGUMAS HISTÓRIAS DE COMO VIVIA A NOSSA GENTE

Isto é a nossa gente.

Este é um momento de memórias.

São histórias da história, de muitas histórias contadas e de outras por contar.

São as histórias desta Ilha, da Ilha dos nossos pais, dos nossos avós, de gerações que a memória dos homens não abarca.

São histórias que foram o dia a dia do povo desta terra.

 

O trabalhador rural o homem da terra o homem que lavrava a terra.

Como se lavrava a terra?

 

De arado de madeira com bico pontiagudo feito de ferro batido no ferreiro da freguesia, puxado por duas vacas, porque a lavoura era pequena e não havia posses para ter junta de bois. O torrão vai-se partindo com o olho da enxada e de quando em vez orientam-se as vacas para se manterem no rego certo.

A janta, essa espreita ali ao lado dentro do cesto coberto com o abafador (sopa de feijão com abobora) acompanhada com a água fresca dentro da vasilha de barro que estava encostada à parede, não vá o astro rei tirar-lhe a frescura que se deseja.

Oh! Amigo os cantos são para cavar, também dão mais uns grãos de milho, nem que sejam as socas para cozer. O diabo são os ratos que se a gente não se põe a pau comem o milho todo dos cabedulhos.

Depois de se lavrar a terra semeia-se.

Como sachar o milho?

 

Milho que encheu de fartura a casa do pobre e é esse pobre que pela manhã se apressava, quantas vezes de sachador às costas, guiando a vaca na companhia da mulher que trazia o cesto com o almoço, não fosse a fome apertar e o regresso a casa ainda vinha longe (trabalhava-se de sol a sol).

A vaca, essa que pela manhã já deu uns quantos litros de leite, que serviam para sustentar a família, caminha lentamente rego fora atras da mulher que a conduz certa até ao cabedulho.

Mas o trabalho continua pelas mãos deste povo, que rega a terra com o suor do rosto, fugindo ao sol debaixo do chapéu feito de palha do trigo que colheu no S. João do ano que já lá vai.

Uns meses depois colhia-se o milho e fazia-se a desfolhada.

O que é a desfolhada?

 

A desfolhada do milho, que dependendo da sua boa colheita, se traduzia em abundância para garantir o pão do agregado familiar, tal faina era motivo de alegria e cantigas, sempre ao som da nossa viola de arame, lá saíam algumas cantigas da charamba ou da chamarrita, quase sempre em despique uns com os outros, num verdadeiro desafio, pondo à prova a verve repentista em quadras de redondilha maior, enquanto que pelo serão for a passava o milho novo cozido, aromatizado com sementes de funcho, fumegando dos pratos ou de tigelas de barro vidrado e cálices de águardente. Nas casas morgadias ou de lavradores abastados, servia-se peixe frito, pão, café de cevada e vinho.

A alegria vinha ao de cima quando alguém descobria um soca vermelha, assistindo-lhe o direito de beijar a face de todos os presentes do sexo oposto.

Como e onde se debulhava o trigo?

 

A eira lugar onde passa a fartura que debaixo do trilho puxado por valentes juntas de bois vai ficando o grão que depois de padejado e ensacado em moios de linho vai garantir a cozedura semanal do pão que vai alimentar os bravos desta Ilha. Para além do trabalho é também lugar de falatório e de brincadeira da pequenada que de vez em quando lá se atreve a saltar para riba do trilho qual carrinho de brincar, que com o olhar atento dos mais velhos lá vão de volta em volta, cada um de sua vez.

Com a forquilha, forquilhão, gadanhas e pás, mulheres e homens vão separando a palha do grão, tudo se aproveita. A fartura assim o exige. Os bois são do Ramo grande, são o nosso gado.

O VIME

O que é o vime e para que servia?

 

O vime, essa vara tenra e flexível de vimeiro, que normalmente servia para fazer ataduras, e depois de trabalhado obra de grande interesse, nada oferece de caracterisadamente terceirense, pois o mobiliário de vime é indústria moderna importada, segundo todas as probalibildades da Ilha da Madeira, exercida principalmente por operários madeirenses ou seus discípulos. No entanto sem grande arte o nosso homem do monte fazia os seus cestos de acartar a uva, o milho, a pedra, na faxina, com sas e mais pequenos as cestas levavam o almoço para a terra, também depois de fervidos os vimos, já sem casca, davam lugar aos cestos para o bodo e para a roupa.

Um vime bem guardado atras da porta, servia para em dia não por a pequenada nos eixos.

 

 

A Vindima

O que é a vindima?

Depois de termos feitos os cestos, vamos utilizá-los, pois não há vindima que não os utilize.

Vindima desse vinho de cheiro, agora proibido por imposição de fora, mas que outrora encheu as adegas deste povo, resta-nos graças a Deus o verdelho e o jaquês. Com quanta alegria se carregaram balseiros em carros puxados por bois em dia de vindima. Vinho que nos mesmos carros, mas ornamentados a rigor, paredes meias com o pão, nas Festas do Senhor Espírito Santo deu abundância e alegria ao pobre.

Vinho docemente pisado com os pés cansados deste povo e bebido com a alegria da partilha.

 

O Chafariz

 

Um lugar privilegiado de encontros, o chafariz, que correndo sem descanso ia ouvindo as conversas tímidas dos rapazes que aproveitando momentos únicos dirigiam galanteios às moças mais formosas, corando-lhes as faces brancas. Chafariz de águas cristalinas prontas a lavar o linho das camisas brancas que os rapares botavam ao domingo ou das blusas arrendadas que eram o orgulho das moças casadoiras.

Como tudo era belo, sem o frenesim de hoje em dia do vai vem constante dos automóveis, as crianças podiam brincar felizes e em segurança.

Quão belo é recordar estes momentos que se apresentam aqui escritos.

Profissões

Várias profissões já desaparecidas, marcaram a sua época tal era a arte e qualidade dos seus executantes, seria impossivel escrevê-las aqui todas.

 

O Sapateiro

Sapateiro que ainda tinha o privilégio de poder ter um aprendiz, que até pagava para poder um dia mais tarde fazer ofício, hoje coisa completamente impossível pois o seguro e a Caixa de Previdência levariam o mestre à falência.

À falência não o leva mas pelo menos vai tirar-lhe o bicho do ouvido uma freguesa que não se acomoda com o serviço feito. É que os sapatos tinham que se poupar e quando sofriam algum conserto tinha que ser de jeito.

 

A Tecelagem

Pela sua antiguidade, pelo seu carácter artístico, abundância de decorações, policromia e técnica, a tecelagem é a primeira das indústrias populares terceirenses.

Nos séculos XVII e XVIII, os casais açoreanos, idos para o Brasil, levaram-na consigo e aí prosperou.

São vários os tipos de tecidos produzidos, e segundo um trabalho de Luis Ferreira Drumond, os principais panos fabricados na nossa Ilha eram a fiampua e a teia cheia, todavia o que lhes contamos são um total de tarefas comuns em casa de tear. Umas cardam, outras fiam, outras fazem franjas e outras ainda fazem retalhos de restos de tecidos, que posteriormente vão dar colorido às mantas e aos tapetes, artisticamente elaborados por essas mãos de fadas.

São das poucas profissões que ainda hoje temos possibilidades de observar, graças aos Grupos de Folclore, que com o trabalho encomendado exigiram que os velhos teares fossem de novo armados e até que gente jovem tomasse gosto por essa arte que fez as delícias dos nossos antepassados.

 

AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO

 

Espírito Santo Deus Misericórdia, assim reza o nosso povo. E é em louvor do Divino que vamos explicar:

Casa do Imperador, altar armado de cetins, lumes e flores, a coroa é feita em lata pobre, mas com a maior devoção do mundo está em destaque no cimo do altar. À noite parentes e amogos rezam o terço, porque depois há lugar à folia numas quadras mal rimadas ao desafio ou num bailo armado onde nunca falta a chamarrita.

Ao lado tudo está pronto, porque no Domingo depois da missa todos se apressam não vá faltar lugar para comer umas sopas e saborear a alcatra bem regada com o vinho de cheiro que abundantemente circula de mão em mão em canjirão cheio e fresco.

Mas como ficou dito e provado o povo terceirense é o mais alegre e folgazão de todo o arquipélago, Ferreira Drumond escreveu e passo a citar:

As festas na Ilha Terceira iniciam-se no limiar do ano novo e terminam na noite de S. Silvestre.

A festa do nosso povo o seu bailo direito ou bailo antigo, os seus desafios e as suas apreciadíssimas cantigas das velhas, qual cantigas de escárnio e mal dizer, que embora sem ofensa são autênticas chamadas de atenção a muitas questões sociais, que na época seriam tabu dizer-se.

 

O Bodo

O Bodo que segundo Joaquim Caetano Pereira e Sousa na sua obra "Esboço de um dicinonário Jurídico, eram refeições ou comidas que se davam aos pobres pelas almas dos defuntos, que pelos abusos da época, El Rei D. Manuel proibiu tal prática, com excepção dos bodos do Espírito Santo, instituidos no reinado anterior pela Rainha Santa Isabel na Vila de Alenquer.

Assim chegaram aos Açores e mormente A Ilha Terceira onde se mantêm até à actualidade.

Os Bodos de hoje já não são como os de ontem, mas tentamos recuar ao principio do século e que fique para a história esta história que foi do Ramo grande com a Vila Nova e receber em seu largo do império os bonitos e recheados carros de toldo, que ainda hoje teimosamente se mantêm em casa dos seus proprietários e estimados com o respeito que essas autênticas peças de museu devem receber.

 

A Tourada

História que se perde no tempo, no tempo em que os Castelhanos por aqui andavam, segundo a opinião de alguns historiadores e que introduziram na Ilha Terceira o gosto pelos toiros.

Mas os Terceirenses criaram um tipo de tourada muito nossa a tourada à corda que pelas suas características sui generis, poder-se-á classificar de única no mundo.

As touradas de outrora movimentavam em alegres ranchos em carroças e carros de bois, transportando farnéis de belos petiscos e cantando belas cantigas do nosso folclore.

Ao lá chegar era ver qual o mais afortunado, de bordão enconteirado e chapéu abeiro pescando o olho a alguma moçoila disponível.

A briga quase sempre acontecia, não só pela disputa duns bonitos olhos, mas por vezes o vinho de cheiro era responsável por esse acontecimento.

Mas a tourada não só levava muita gente ao local, como despertava o interesse por onde passavam os peregrinos, chamando à atenção das beatas e mexeriqueiras, que à janela faziam renda e falavam da vida alheia, contando no dia seguinte todas as peripécias qual jornal ou noticiário que ao tempo não existia.

 

A Tasca

E o vinho de cheiro, os ovos cozidos, as favas escoadas, o tremoço e as batatas com massa de malagueta, era coisa que não vai faltar, a tasca feita improvisadamente, num cerrado, nos baixos de uma casa ou num prédio em ruínas. Exibindo uma bandeira vermelha como chamariz, um cavalete servia de balcão, sobre o qual estavam os petiscos bem temperados de malagueta, pimenta, sal e vinagre a puxarem o vinho de cheiro. Como cobertura, uma lona, suportada por uma armação de varas de eucalipto. A um canto um barril de quinto encanteirado, onde era possivel encher os canjirões de vinho de cheiro.

O proprietário batia palmas para entusiasmar os clientes ao consumo, enquanto grita:

"Vá dentre fregueses".